Vislumbramos como chocante, porém já previsível, uma diáspora norte-americana que pode ter consequências objetivas
Despertar cada dia, no reflexo inevitável de verificar automaticamente as notícias, já que nos habitamos com a vida online e em tempo real, traz quase uma conformação com a tragédia do dia, quer por revolta da natureza, quer por reiterados erros humanos frente às tecnologias criadas para servir ao bem comum.
Hoje porém, nos vemos diante de uma curiosidade de nova qualidade, diante de fenômenos biológicos conhecidos e esperados, com as epidemias causadas por vírus do mundo animal processando seu spillover (passar para humanos), como se passa com as novas gripes aviárias que se já anunciam com as mudanças genéticas sofridas e os desdobramentos constatados: após os casos em humanos descritos, no estado de Nevada, nos Estados Unidos, uma nova variante do vírus H5N1 descoberta em testes de leite bovino revela que as fazendas industriais se tornaram o local ideal para o desenvolvimento de novos vírus.
A revista Lancet publica em seu atual número um editorial com título “Caos americano; luta por saúde e medicina”, instado pela saída dos Estados Unidos da OMS e do acordo de Paris, e das ameaças, algumas já concretizadas, de desmonte de instituições como a USAID, comprometendo ações em saúde globalmente.
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A palavra “caos” se repete em manchete do jornal New York Times fazendo menção às consequências graves na saúde e na segurança, no que se relaciona às migrações forçosamente geradas por mudanças climáticas.
Choca sobretudo a menção, pois verdadeira, das demissões de responsáveis por estudos clínicos de Aids, tuberculose e malária, na África e na Ásia, e às centenas de voluntários, neles incluídos, adultos e crianças, que com essa interrupção abrupta, ficarão sem segurança alguma de provimento, nem de monitoramento de efeitos colaterais, nem dos tratamentos necessários e implícitos em ensaios clínicos.
A sanha demolidora implica inclusive em recomendação para retratar (retirar de publicação) artigos científicos que não obedeçam à doutrina de credos e convicções ideológicas, por mais equivocadas que sejam.
Eliminar conceitos e práticas que defendem a inclusão de pessoas, reduzir gênero à identidade biológica, interferir em práticas bem estabelecidas de saúde reprodutiva, ou desestimular a inclusão de minorias étnicas e raciais em estudos clínicos, compõem um cenário impensável em pleno século XXI.
A se somar a tudo isso, a lamentável peroração da nova Ministra da Fé do governo norte-americano sobre “gestações satânicas”, nos faz sentir no mínimo falando outra linguagem, aquela em que forjamos nossa formação sob enunciados de empatia, compaixão e generosidade.
No horizonte ocidental da ciência, vislumbramos como chocante, porém já previsível, uma diáspora norte-americana que poderá ter consequências objetivas, a partir da demissão de centenas de funcionários de agências que têm atuação tentacular.
Cabe, naturalmente, à comunidade científica respeitar pontos de vista diferentes, sempre. Entretanto sua responsabilidade exige se opor a qualquer política que ameace a saúde da população. Não pode haver chance de silenciar diante de qualquer perplexidade inicial e é o que se espera de cérebros tão privilegiados, produzindo conhecimento relevante para a vida no planeta.
Abstraindo das tragédias de todo dia, e imantados que somos pela ciência e sua infinita capacidade de buscar respostas sobre o universo, descobertas científicas recentes, de certa forma nos redimem da velha ansiedade, frente a esse cotidiano, tão repetidamente triste em que vivemos.
Recentemente publicado por pesquisadores da Universidade de Cornell, a descrição da colossal superestrutura de 1,3 bilhão de anos-luz de comprimento, e massa estimada de 200 quatrilhões de vezes a do Sol, composta de um aglomerado de galáxias interligadas, desafia a compreensão humana sobre o cosmos.
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Foi denominada Quipu em referência ao antigo sistema de medição inca. Esse modelo de tessitura nos leva, metaforicamente, a refletir em tanto bem que o homem pode produzir e noticiar, e por mais distante que uma galáxia possa nos parecer, poder olhar o céu e nos encantar, conforta de verdade.
Fonte:O Globo