Plano de nearshoring (mudança de operações para países vizinhos) pode ser ameaçado caso presidente dos EUA cumpra promessa de sanções
Há apenas alguns anos atrás, fabricantes disputavam espaço para realocar suas operações para Monterrey, uma cidade industrial no nordeste do México, buscando se aproximar dos Estados Unidos e de seu vasto mercado consumidor. Hoje em dia, corretores imobiliários oferecem planos de aluguel flexíveis para manter os negócios na região.
A meta do México de crescer rapidamente atraindo estrangeiros e aumentando as exportações para os EUA já havia começado a enfraquecer antes mesmo de Donald Trump retornar à Casa Branca. Agora, todo o plano de nearshoring corre o risco de desmoronar se o presidente dos EUA cumprir a promessa de impor pesadas tarifas sobre os produtos mexicanos.
— A incerteza reina aqui — disse Mario Galindo, chefe comercial da Prommont, que fabrica grandes caixas e plataformas para ajudar empresas a transportar seus produtos. A empresa, que atende clientes nos EUA e no México, está abrindo mão de aumentos de preços e reduzindo margens de lucro para manter os clientes.
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— Eu não acho que vamos ter tarifas, mas não temos como saber — disse Galindo. — Para poder investir, precisamos de certeza.
A mudança repentina nas perspectivas da segunda maior economia da América Latina não só obscurece o governo de cinco meses da presidente Claudia Sheinbaum, mas também sinaliza uma oportunidade perdida para o México se libertar de décadas de crescimento lento.
Entre 1980 e 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu pouco mais de 2% ao ano, em média, segundo o Banco Mundial. Uma onda de investimentos de nearshoring impulsionou o crescimento econômico para mais de 3% em 2022 e 2023, levando muitos investidores a acreditar que o México estava entrando em um período sustentado de expansão ainda maior — um que poderia permitir ao país superar consistentemente seus pares latino-americanos nos próximos anos.
Quando Sheinbaum assumiu o cargo em outubro, as perspectivas econômicas do México já estavam se deteriorando. As estimativas de crescimento para 2025 caíram para menos de 1%, pois os investidores esperavam cortes no orçamento necessários para corrigir um crescente déficit fiscal herdado.
Então, veio Trump ameaçando tarifas de 25% sobre o México caso o país não conseguisse parar o fluxo de migrantes e drogas pela fronteira compartilhada.
Em meio a intensas negociações, o prazo para a implementação dessas tarifas foi adiado por um mês, até 4 de março. Mas mesmo que o México eventualmente as evite, a incerteza criada pode ser suficiente para levar a economia à recessão.
— Talvez nada aconteça, mas não sabemos — disse Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. — Apenas essa ansiedade até que o processo seja resolvido já está tendo um impacto na economia. Achamos que a incerteza da política comercial está reduzindo o crescimento no México em 0,5 a 1 ponto percentual.
LEGADO MISTO
A incerteza também está colocando em risco os ganhos sociais alcançados sob o antecessor e mentor de Sheinbaum, o ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, que liderou grandes investimentos governamentais e supervisionou a maior queda na pobreza e desigualdade no México em décadas.
AMLO, como o presidente é conhecido, permaneceu extremamente popular até o fim de seu mandato, embora os investidores em geral desaprovassem suas reformas constitucionais, incluindo uma reforma judicial que o Congresso aprovou durante suas semanas finais no cargo.
Grande parte do crescimento econômico do México na primeira metade de 2024 foi impulsionado pelos ambiciosos planos de infraestrutura de López Obrador, como o Tren Maya e a refinaria Dos Bocas. Mas executar esses projetos custosos levou a um aumento do déficit orçamentário que Sheinbaum precisa corrigir para evitar uma crise fiscal durante seu governo.
Sua administração promete reduzir gastos, visando um déficit orçamentário equivalente a 3,9% do PIB este ano, abaixo do déficit de 5,9% em 2024. Essa retração por si só já representa um grande obstáculo ao crescimento.
‘PAGUE-ME METADE’
Em Monterrey, a desenvolvedora imobiliária industrial Roca Desarrollos está em alerta máximo. A empresa, que tem clientes que exportam para os EUA, está oferecendo descontos nos aluguéis de seus prédios para reter clientes preocupados com a incerteza e até oferecendo planos de pagamento diferido, disse Carlos Garza, chefe de gestão comercial.
Até agora, a Roca Desarrollos não perdeu nenhum cliente, disse ele. Mas novas empresas que buscavam investir no México e usar seus serviços estão pausando os planos.
— Nós temos diferentes estratégias com os potenciais clientes para facilitar o início de seus investimentos no México, como oferecer um período de carência — disse Garza. — Dizemos a eles: ‘leve todo o prédio, mas me pague apenas metade por seis meses.’
Em discursos públicos e coletivas de imprensa, Sheinbaum afirma que a economia está em uma base sólida e que os investimentos de nearshoring continuam acontecendo. No entanto, seu governo agora oferece incentivos como isenções fiscais para empresas que investem em operações de manufatura no México.
Os dados recentes não deixam dúvidas sobre a desaceleração que atinge a economia mexicana. O PIB do país encolheu 0,6% no quarto trimestre, com queda na agricultura e na manufatura. Foi a primeira contração desse tipo desde 2021. O banco central cortou pela metade sua projeção de crescimento do PIB para este ano, de 1,2% para 0,6%, alertando que potenciais políticas comerciais dos EUA poderiam prejudicar ainda mais a atividade.
Além disso, há crescente preocupação com a possibilidade de deportações em massa de mexicanos dos EUA e como isso poderia afetar as remessas, que totalizaram US$ 64,7 bilhões em 2024, impulsionando o consumo doméstico.
Com o crescimento já uma fração dos níveis vistos em anos anteriores, os formuladores de políticas aceleraram o ritmo dos cortes nas taxas de juros em fevereiro, mas sua campanha de flexibilização monetária pode ser brevemente limitada pelas incertezas relacionadas a uma possível guerra comercial.
A MRM, importadora e distribuidora de peças de motocicletas em Monterrey, é um bom exemplo. Os executivos da empresa estão particularmente preocupados que Sheinbaum concorde com as exigências de Trump de impor tarifas à China, de onde vêm 80% das importações da MRM.
A MRM está buscando diversificar fornecedores caso as tarifas sejam aplicadas, com viagens à Índia, Vietnã e Colômbia, disse o diretor executivo Alejandro Solorio. Ele alertou que mudanças de fornecedores levariam a preços mais altos para seus clientes.
Depois que Trump disse na semana passada que as tarifas sobre produtos mexicanos começarão em 4 de março, Sheinbaum afirmou que ainda aguardaria o resultado das negociações e deixou aberta a possibilidade de outra ligação com o presidente dos EUA.
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— Ele tem seu jeito de se comunicar — disse ela na quinta-feira, acrescentando que está “otimista de que podemos chegar a um acordo dentro do marco de nossa soberania e nossos princípios.”
Fonte: O Globo